-Toni!!! Despacha-te… traz-me as rabanadas! Despacha-te, homem!
- Acalma-te, Natália. Ainda temos uma tarde inteira para preparar a mesa!
Era véspera de Natal, mas a família Valadas era como todas as famílias portuguesas, festejavam o Natal no dia vinte e quatro e só iam fazer as compras no dia anterior. Era por isso que a dona Natália estava tão atarefada.
A dona Natália era uma mulher com quarenta e dois anos de idade, baixa e em boa forma física, pois fazia muito exercício ao levar os pratos e as travessas da cozinha para a sala de jantar e vice-versa.
O senhor António, ao contrário da sua mulher, tinha um pouco de peso a mais: pesava noventa e quatro quilos e media um metro e setenta, por isso os seus quarenta e um anos já lhe pesavam na barriguinha.
O senhor e senhora Valadas tinham dois filhos. A Paula, que era uma jovem de quinze anos, com um corpo atlético e que provocava alguma inveja em alguns dos seus colegas de turma. Ela era atleta de natação mas nunca tinha ganho nenhuma medalha, apenas o seu belo corpo. Paula era baixa, tinha os olhos azuis e os cabelos loiros.
O outro filho do senhor e da senhora Valadas era o Paulo. O Paulo tinha catorze anos e não tinha o corpo da sua irmã, apesar de também praticar natação. Ele era bastante mais alto do que Paula, tinha os olhos azuis e o cabelo castanho claro.
A família Valadas estava muito atarefada com a aproximação da ceia de Natal. Paulo e Paula tinham ido comprar os últimos presentes e por isso os seus pais estavam com trabalho a dobrar.
Eram três horas da tarde quando alguém bateu à porta.
- Quem é? – perguntou a dona Natália.
- Sou eu. – respondeu uma voz familiar do lado de fora da porta.
- Ah! És tu… entra, a porta está aberta… – informou a senhora Natália, mas ao ver que isso não correspondia à verdade, acrescentou – … bem, está aberta depois de eu a abrir. Espera um segundo.
Natália abriu a porta e entrou em casa um vulto coberto com uma capa impermeável preta. Era a irmã mais nova de dona Natália, chamavam-lhe Marijoana, pois o seu nome era Maria Joana.
A Marijoana entrou na sala de jantar e sentou-se confortavelmente no sofá. Depois ligou a televisão e sem dizer uma única palavra deitou a mão aos doces que estavam na mesa e comeu um. Marijoana era uma jovem senhora, na casa dos vinte e sete anos, tinha os olhos de um castanho muito intenso e penetrante, os seus cabelos eram longos e muito escuros, mas não eram pretos.
- Então maninha?! – voltou Natália a falar enquanto tentava conter uma série de gargalhadas que teimavam em sair. – Isso faz-se? Entras em casa das pessoas, acomodas-te no sofá, ligas a televisão e ainda me comes uma rabanada?
- Mmmm… esta rabanada está muito boa. Foste tu que as fizeste, Natália? – perguntou Marijoana.
- Não, foi o Toni… – respondeu Natália num tom de brincadeira.
Enquanto as duas irmãs travavam na sala de jantar uma conversa que parecia não ter fim, o senhor António saiu para a rua às escondidas e foi fumar um cigarro. Mas quando abriu a porta, os seus filhos estavam a atravessar o pátio que dava para a entrada. O senhor António apressou-se a esconder o cigarro atrás das costas enquanto os dois irmãos entravam em casa.
- Toni!!! Já vais fumar outra vez?! – era a sua esposa, e estava muito zangada – ainda ontem disseste que tinhas fumado o último cigarro no mês passado e agora apanho-te a fumar às escondidas?! Espero que tenhas uma boa explicação para isto…
- E tenho. – respondeu António com muita calma que até parecia que a explicação que ele ia dar era verdadeira – E tenho mesmo uma boa explicação. Bem… como estava a chover eu ia aproveitar para deitar o meu último cigarro fora.
- Pai… – chamou Paula – essa explicação até podia ser convincente, não fosse o facto de teres outro cigarro a sair-te do bolso e de teres um isqueiro na mão…
E depois desta observação de Paula começaram todos a rir às gargalhadas. Depois António pegou num cigarro e deu-o à sua mulher, o outro ficou para ele.
Na noite de consoada a família Valadas juntou-se toda na casa de António e Natália que conseguiram arranjar a mesa a tempo da ceia.
O jantar estava muito divertido e a comida cozinhada pelo senhor António estava uma delícia. Estavam na sala de jantar perto de trinta pessoas que falavam umas com as outras de uma forma desordenada, não se percebendo assim, quem estava a falar com quem.
Naquela sala vivia-se um ambiente de paz, harmonia, amizade, fartura, felicidade e acima de tudo de calor pois o fogão de sala estava aceso. No entanto, nesse momento a lenha já tinha sido quase toda consumida pelas chamas que agora estavam muito pequenas.
O avô Lourenço levantou-se e saiu para ir buscar mais lenha. Já não estava a chover, mas estava muito frio, por isso o avô agasalhou-se bem. Quando o avô entrou na arrecadação exterior onde tinha a lenha ouviu um barulho, espreitou pela porta e viu um vulto a coxear, entrando pelo portão da moradia.
O senhor Lourenço, pensando tratar-se de um ladrão, pegou numa canhota e seguiu o homem. Este deu uma volta à casa e parou junto da casota do cão. Como este estava dentro de casa o ladrão podia passear pelos jardins da vivenda.
Entretanto, dentro de casa as conversas continuavam animadas e ninguém dava pela falta do avô. Paulo e Paula conversavam com os seus primos numa mesa à parte da dos adultos. Eram doze primos, sendo dez deles filhos de irmãos de Natália, já que António só tinha uma irmã com dois filhos.
Ao mesmo tempo mas lá fora o avô Lourenço continuava escondido atrás de um arbusto e observar o homem. Este continuava virado para a casota deserta, observando sabe-se lá o quê. De repente o desconhecido virou-se e começou a dirigir-se para a arrecadação exterior. Passou mesmo à frente do avô Lourenço, que conseguiu ver que não se tratava de um ladrão mas sim de um mendigo, pois tinha as roupas todas estragadas e sujas, assim como a cara.
O mendigo atravessou um pátio e entrou na arrecadação onde tinha lenha, feno e palha, dois tractores e várias ferramentas e instrumentos agrícolas e de mecânica. O avô saiu do seu esconderijo e seguiu outra vez o mendigo.
O avô Lourenço estava a achar aquilo muito estranho, mas continuou a seguir o velho homem e quando este entrou na arrecadação o avô escondeu-se atrás de um tractor, para ver o que é que o homem tinha ido ali fazer.
Dentro de casa já se começava a sentir a falta do avô Lourenço e estavam todos a ficar preocupados. A dona Natália foi espreitar pela janela, que tinha vista directa para a arrecadação exterior, mas não conseguiu ver nada devido à escuridão que fazia àquela hora da noite.
O mendigo deitou-se e aconchegou-se em cima dos fardos de palha e feno que estavam num canto da arrecadação. Do outro canto, atrás do tractor o avô continuava a espiá-lo, e ainda um pouco confuso com o que estava a acontecer ali.
Mal se deitou em cima da palha o mendigo começou logo a ressonar. Alguns segundos depois a porta de casa abriu-se e saiu de lá de dentro o Paulo acompanhado dos seus primos Miguel e Vítor e da sua tia Marijoana. Ao vê-los sair de casa o avô Lourenço ficou preocupado e sem saber o que fazer.
Aflito com a situação e vendo os netos e a filha preocupados com ele, chamando-o e procurando-o por todo o lado, o avô Lourenço agiu por instinto: apareceu à família que o procurava e sem fazer barulho escondeu-se com eles atrás de uma árvore e contou-lhes o que se tinha sucedido. Depois pediu à Marijoana que fosse com ele acordar o mendigo e disse ao Paulo e ao Miguel para se posicionarem perto da porta, para, no caso do mendigo ser violento, o avô e a tia poderem fugir para dentro. O avô aproximou-se do mendigo enquanto que a Marijoana ficou à porta da arrecadação. Quando o avô já estava mesmo muito próximo do mendigo este acorda e diz:
- Por favor não me faça mal, sou apenas um pobre mendigo sem comida nem casa… por favor não me faça mal.
Estava muito escuro ali dentro e o avô não conseguia ver quem era o mendigo, no entanto aquela voz pareceu-lhe familiar.
- Tenha calma, – respondeu o avô – nós não lhe vamos fazer mal. Marijoana, liga a luz, por favor. – pediu o avô.
Mal Marijoana ligou a luz, o queixo do avô “caiu”, sem que este o conseguisse “segurar”. O mendigo para quem ele estava a olhar era um velho amigo seu, que tinha andado consigo na tropa e com quem ele tinha, realmente, travado uma amizade muito forte.
- Amaral?! – perguntou o avô Lourenço ainda meio espantado meio chocado.
- Lourenço!!! – exclamou Amaral como se estivesse perdido no deserto e o avô fosse a ajuda por quem ele tanto esperou. De facto, naquelas circunstâncias o avô poderia ser uma grande ajuda.
- O que estás aqui a fazer na véspera de Natal?! Não devias estar com a tua família? – perguntou o senhor Lourenço.
- Qual família? – interrogou-se Amaral – A minha mulher morreu, não tenho filhos, não tenho irmãos, a minha casa foi hipotecada… qual família? Não tenho onde dormir, não tenho nada para comer, não tenho dinheiro… não tenho nada… – lamentou-se Amaral.
- E agora, o que é que fazemos? – perguntou Marijoana que já se tinha aproximado juntamente com a maioria da família que já tinha saído de casa.
- Esperem aí! – exclamou o avô com um certo brilho nos olhos – Ora bem, hoje é Natal, dia de alegria, de amizade, carinho, felicidade, fartura… e se lhe déssemos um presente? – exclamou Lourenço apontando para Amaral.
-Um presente??? Que tipo de presente? – perguntou o resto da família em coro e um pouco indignada.
- Sim, um presente. – respondeu o avô – O melhor presente que lhe poderíamos dar. Amaral, hoje vais jantar connosco, dormes na minha casa e amanhã procuramos um lugar para tu ficares. O que me dizes?
- Bem… – começou Amaral – se eu estivesse noutras circunstâncias era capaz de não aceitar, mas atendendo à minha situação social e visto que é Natal, a única coisa que posso dizer é: obrigado pelo convite.
E não se perdeu tempo com mais conversa, o avô conduziu o seu velho amigo até ao interior da casa onde acabaram de jantar. Depois da sobremesa foram todos ver televisão enquanto que aqueles que tinham comido menos, matavam agora a fome com aperitivos.
Já perto da meia-noite o avô Lourenço saiu da sala e foi para o quarto sem ninguém reparar na sua ausência. Á meia-noite em ponto apareceu na sala alguém vestido de Pai Natal, com cinco ou seis sacos enormes cheios de presentes.
Todos repararam que o Pai Natal era o avô, excepto a Rita, o Diogo e o Tiago que eram os netos mais novos e que ainda acreditavam na existência do Pai Natal.
O avô, ou melhor o Pai Natal, distribui os presentes e deixou as crianças todas radiantes a brincar com eles. Daí a cinco minutos apareceu o avô Lourenço com a sua roupa normal e com um sorriso de orelha a orelha ao ver a felicidade dos filhos e dos netos naquele dia.
No dia seguinte quando a dona Natália acordou já o senhor António estava a preparar o pequeno-almoço, no entanto os seus filhos Paulo e Paula ainda se encontravam a dormir.
Na casa vizinha o senhor Amaral ressonava o mais alto que se possa imaginar, enquanto que no quarto ao lado a dona Esmeralda, esposa do avô Lourenço já se tinha levantado e estava a acordar o marido.
O avô Lourenço e a avó Esmeralda tinham acolhido por aquela noite o senhor Amaral, em sua casa.
Na manhã do dia vinte e cinco foram os três dar um passeio matinal para ver se encontravam vagas nas instituições de acolhimento a idosos necessitados, no entanto a visita não lhes correu bem, pois alguns estavam sem vagas e outros não tinham condições para receber pessoas de idade.
Á noite, na casa do senhor Lourenço, a dona Esmeralda preparava uma deliciosa refeição à qual o senhor Amaral não iria conseguir resistir, pois estava com muita fome.
Quando já estavam os três sentados à mesa o senhor Lourenço começou a falar:
- Tenho uma notícia para vos dar. – aqui o avô fez uma pausa para criar algum suspense e depois contou a notícia – Bem… como o Amaral não encontrou nenhum sítio para ficar vamos acolhê-lo na nossa casa o máximo de tempo que pudermos. O que me dizem?
- Eu acho que é uma óptima ideia. – disse a avó Esmeralda.
- Oh! Lourenço muito obrigado. Nem sei como te hei-de agradecer… – lamentou-se Amaral.
Após deste episódio de amizade continuaram a comer o petisco da avó e depois foram para a cama, pois estavam todos muito cansados, após os dois longos dias anteriores.
Na casa ao lado o Paulo e a Paula estavam a jogar “Travian” e a falar no “Messenger” pela Internet. O senhor António estava a ver televisão enquanto que a dona Natália acabava de lavar o último prato para ir ter com o seu marido. No andar de cima a Marijoana arrumava os seus pertences no seu novo quarto depois de doar o seu velho quarto, em casa do avô Lourenço, ao senhor Amaral.
E assim acabava o dia de Natal para esta família que continuou a viver os seus dias com bastante felicidade devido à boa acção que tinham praticado.
Trabalho realizado por: Rui Filipe Fiúza da Rocha Dantas N.º 25 9.º 4